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Willy Muller: “Centriferia quer dizer que a periferia não está sendo mais vista como um modelo negativo, segregado como o entorno de um lugar bom”

17 de abril de 2017

Nascido na Argentina, mas radicado em Barcelona, onde mora há muitos anos, Willy Mulller foi co-fundador do Instituto de Arquitetura Avançada da Catalunha (IAAC) e criador da Willy Muller Architect (WMA). Ele é consultor integrador do Plano Metropolitano, desenvolvido pelo Consórcio Quanta-Lerner, e usa a sua experiência internacional para analisar o processo de urbanização da Região Metropolitana do Rio e para mostrar a necessidade de um planejamento imediato para que o futuro dos municípios seja promissor.

Por que você veio trabalhar no Rio de Janeiro?

O Rio é um espetáculo, impactante em termos de natureza e urbanidade. Primeiro você se sente absolutamente atraído, só depois você consegue enxergar os defeitos. Eu demorei muito para chegar aqui, mas depois que cheguei, não consigo mais sair. Até o meu trabalho no IAAC, em Barcelona, está voltado para cá. Temos um grupo de estudantes de várias partes do mundo instruídos a olhar a realidade e a complexidade urbana do Rio. Queremos ouvir as novas gerações, entender esse olhar inovador na tentativa prever o futuro desta cidade.

E como seria o futuro desta cidade?

Essa é a pergunta de 1 milhão! Essa temática deveria ser colocada nas escolas, porque a preocupação com a cidade em que você mora não é só de profissionais ou especialistas. A gente deveria se perguntar a toda hora “como eu gostaria que fosse a minha cidade no futuro?”. Muitas vezes, as previsões são dramáticas, até assustadoras. Os indicadores da complexidade, dos déficits, da dificuldade habitacional, podem ter um efeito paralisador. A própria sociedade tem, às vezes, a incapacidade de encontrar soluções que deem conta dessa imensidão de problemas. Até os governos têm dificuldade de planejamento e execução. Por isso, cada vez mais temos que pensar que uma das prioridades culturais que as pessoas devem ter é saber colocar as cidades para frente.

Qual é a grande complexidade?

Pela primeira vez na história da humanidade nós temos mais população morando em cidades do que fora delas. Esse é um fato histórico, complexo, que tem reflexos imediatos. Nós estamos virando uma população absolutamente urbana no mundo inteiro. Uma das principais consequências seria que a economia também será feita em condições urbanas. As indústrias, por exemplo, terão a chamada 4ª Revolução Industrial, que prevê uma mudança tecnológica muito importante. Outro exemplo é a transformação brutal em termos de mobilidade. Não paramos de inventar novos sistemas de transporte que sejam melhores, mais otimizados, mais ecológicos e que deem a ideia de que, no futuro, vamos conseguir melhorar nossa cidade. Para isso precisamos de planejamento.

Há solução?

A primeira coisa boa é que o atual diagnóstico está sendo compartilhado, já não é visto apenas pelos especialistas. Todo mundo entende e fala exatamente o mesmo cenário. Há 20 anos não era assim. Com todo o desenvolvimento urbano, o nosso imaginário nos levava a crer que tudo era possível, tudo era capaz ser desenvolvido e de funcionar. Hoje nós estamos conscientes que isso tem um limite. Não tem mais como conseguir avançar depredando o território, construindo desenfreadamente, contribuindo para o espraiamento urbano, sem nenhuma capacidade de levar estrutura, esgoto, água ou energia para as pessoas.

 Mas como tratar os problemas das cidades?

Temos que perceber que o diagnóstico não é só um tema urbanístico, mas também é político, é econômico. Essas grandes áreas de periferias da Região Metropolitana são dependentes em vários sentidos, econômicos, sociais, em termos de tempo. Os municípios não têm a real capacidade de se movimentar sozinhos, em benefício próprio, usando todo o seu potencial urbano como deveriam. Nós temos uma relação centro-periferia histórica.

Essa discussão de centro-periferia nos permite fazer uma reflexão interessante, porque muitas vezes, nas cidades chamadas subdesenvolvidas estão surgindo megalópoles, que são as maiores do planeta, como Rio de Janeiro, São Paulo, México, Jacarta, as quais reforçam a mensagem de um mundo ainda sem democracia, sem distribuição social, que está olhando a cidade como um lugar de salvação, onde se tem mais oportunidades do que fora dela.

É disso que trata seu conceito de Centriferias?

O conceito de Centriferia quer dizer que a periferia não está sendo mais vista como um modelo negativo, segregado como o entorno de um lugar bom. Nós conseguiríamos reverter essa experiência negativa, considerando que aquela periferia tem importantes centros dentro dela mesma. Com esse modelo, tem-se um grau de dependência voluntária, em que todo mundo é dependente de todo mundo, o que cria condições de urbanismos diferentes.

Como combater essa dependência?

A única forma que os especialistas conseguiram achar até hoje para solucionar isso é aumentar a velocidade do transporte. Criar melhores condições de transporte é uma aspirina dada a um enfermo terminal, e, às vezes, chega a ser até um acelerador do processo degenerativo das cidades. Então, quando falamos das centriferias, o objetivo é olhar para as periferias das cidades, tentando cortar essa absoluta dependência bipolar com o centro. Temos que criar novas oportunidades de trabalho, mais lazer, mais qualidade de vida. Primeiro desafio, onde nós vamos adensar.

É isso que acontece na Região Metropolitana do Rio?

Toda essa área imensa da periferia do Rio e das cidades em geral foi construída sem organização, sem planejamento do espaço público e sem previsão da quantidade de pessoas que iriam morar ali. Temos um dado que seriam quase 3 milhões de pessoas morando em favelas na cidade ou em aglomerações com a incapacidade real de infraestrutura. É preciso adensar, construir prédios altos em locais com condições de infraestrutura, serviços, esgoto, energia. Ao mesmo tempo você tem que proteger a identidade, os pequenos negócios locais, que guardam a autenticidade do território. Não dá para fazer a mesma política habitacional dos anos 70, 80 e 90 em que quase toda a região latino-americana teve grande desenvolvimento, mal planejado.

E se levar transporte adequado?

Está absolutamente comprovado que o modo atual de deslocamento dos moradores da periferia para o centro do Rio foi um erro histórico de crescimento das cidades. Aumentar a velocidade dos transportes para diminuir o tempo de deslocamento pode, momentaneamente, resolver o problema. Mas acaba por criar uma nova demanda, porque pessoas que antes não utilizavam esse transporte passam a usar, pessoas que antes moravam mais próximos, passam a ir para locais mais distantes e mais baratos, já que serão atendidas pela rede de transporte. Está aumentando a mancha urbana e essa demanda por infraestrutura que a gente chama de demanda associada, a qual é capaz de acelerar um processo que, em outra situação, estaria mais tranquilo. Claro que seria bom ter um transporte público de qualidade, moderno, sustentável e rápido. Mas o prioritário seria criar condições para que essas pessoas tenham oportunidades de trabalhar muito mais perto do lugar onde mora.

Quais os próximos passos?

Obviamente temos que pensar que esse tipo de transformação urbana é de longo prazo. Mas o pensamento tem que ser voltado para o futuro, entender qual é a previsão do Rio para 2050. O Plano Estratégico Metropolitano está criando uma visão crítica, com participação da sociedade. Não basta contratar alguém que tome decisões sem escutar o que a população está esperando. Uma definição muito boa do Jaime Lerner, coordenador de Estratégias do Consórcio Quanta-Lerner, diz que as cidades são como instrumentos musicais, que precisam estar afinados por especialistas. Mas para tocar, pode ser qualquer pessoa que goste de música. Isso define muito bem as áreas dos especialistas e as áreas possíveis de participação. A ideia é usar os estudos e a tecnologia para prever esse futuro e fazer com que ele chegue da melhor forma, com cenários flexíveis, capazes de se adequar a qualquer época e situação.

 

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