Paulo Canedo: “Precisamos fazer com que esse ativo se transforme em algum benefício econômico”
Paulo Canedo, especialista do Consórcio Quanta-Lerner. Foto: Blog Rio de Encontros
Coordenador do Laboratório de Hidrologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor da Coppe, o especialista do Consórcio Quanta-Lerner Paulo Canedo fala sobre os problemas da Região Metropolitana do Rio na área de saneamento e resiliência, apresentando um diagnóstico e sua visão de futuro.
Qual a importância do desenvolvimento de um Plano Estratégico para a Região Metropolitana do Rio de Janeiro?
Seguir uma lógica bem construída de ações é sempre melhor do que a realização de ações aleatórias. Acredito no planejamento e acho que podemos ganhar muitíssimo com a Região Metropolitana do Rio planejada. Há muitas ações que não são municipais, mas regionais, como mobilidade, saneamento, combate às cheias, lixo, esgotamento sanitário, garantia de água potável e até mesmo o lazer. Todas são atividades que servem a uma região maior que o município e por isso só podem ser construídas com a participação de todos. Além disso, é bom frisar que investimentos planejados e executados com uma ordem lógica são sempre muito mais baratos e trazem mais benefícios do que aquelas ações feitas de forma desorganizada.
Como o senhor resumiria o diagnóstico e a visão do futuro para os problemas específicos da área de Saneamento apontados no Plano?
Diria que nós temos grandes desafios pela frente. O primeiro deles é fazer com que a população da Baixada Fluminense nunca mais tenha que usar sacos plásticos nas pernas para não pisar na lama ao sair de casa, acabando com as macro enchentes. Outro grande desafio é água potável para todos. Não há nenhuma razão para que a RMRJ não tenha 99,5% de atendimento. Temos um planejamento que, se seguido, poderemos garantir que a RMRJ terá o serviço de água potável universalizado. Mas não basta ter a água distribuída em dias comuns. É preciso que haja garantia de água mesmo para grandes períodos de estiagem. É o que chamamos de segurança hídrica. É claro que sempre haverá períodos críticos não previstos, mas eu posso garantir que, se seguido o que está escrito no Plano, nós poderemos enfrentar períodos críticos de mais cinquenta anos de recorrência. O terceiro grande desafio é o esgoto, e isso nos deixa numa situação muito vergonhosa, porque o recolhimento do esgoto na RMRJ é muitíssimo aquém do nível precário, na ordem de 50%. Fizemos um estudo para aumentar isso, e acho que conseguiremos atingir a casa dos 85% no fim do horizonte do Plano. E finalmente, o último desafio é o lixo, fato estranho porque todos os lixões já haviam sido fechados e transformados em aterros sanitários. E por um motivo de má gestão, nós regredimos. Estamos trabalhando para novamente termos um Estado estruturado para receber o lixo em aterros sanitários bem constituídos e operados. E aí nosso esforço seria em diminuir o trânsito de lixo, melhorar a coleta, promover a reciclagem de lixo e finalmente promover a coleta seletiva.
Se o eixo Saneamento e Resiliência Ambiental, sob a sua responsabilidade, abrange essas diferentes frentes, como trabalhar com tantos problemas dentro de uma lógica metropolitana?
O conceito de saneamento é muito amplo, ele vai desde o lixo ao esgotamento sanitário, à garantia de água potável que é diferente do fornecimento de água, e a RMRJ, por acaso, é muito falha em todos esses pontos. Começa que a região da Baixada Fluminense, como o próprio nome diz, é uma região baixa e plana, localizada entre o mar e a montanha, portanto sempre sujeita a inundações. Aliviar esse problema é uma atividade absolutamente fundamental. O combate às cheias é uma lógica regional e nunca municipal. Nunca penso em combater as cheias olhando municípios ou bairros. Tem que se olhar a bacia hidrográfica e, no caso da RMRJ, a bacia hidrográfica do Iguaçu-Sarapuí, por exemplo, cobre oito municípios. Mais uma razão para que haja um planejamento regional, e nunca municipal. Repare o seguinte, uma coisa não implica não fazer outra. É claro que precisa haver um planejamento municipal, mas o primeiro planejamento tem que ser regional.
E nessa questão das cheias na Baixada, para onde apontam as soluções?
Eu venho estudando esse assunto há 27 anos e posso garantir que todas as ações importantes estão contempladas no Plano com soluções economicamente viáveis. O Plano aponta para a solução definitiva do problema de macro drenagem, e quando falo de macro drenagem, não estou falando de pequenas inundações que acontecem em ruas. Isso muitas vezes é um problema de micro drenagem, quase sempre manutenção de bueiros. Só pra gente ter uma ideia, aquelas ruas que contornam a Lagoa Rodrigo de Freitas não poderiam jamais acumular água, era só ter um cano escoando para a lagoa, que por sua vez está conectada ao mar. No entanto, é muitíssimo comum que você veja toda a orla da Lagoa Rodrigo de Freitas inundada em dias de chuva. Pergunto, isso é um problema de macro drenagem? Não, isso é um problema de limpeza de bueiros. Nossas ações apontam para uma solução completa, não excluindo ações de micro drenagem, que é essencialmente municipal.
Quais são os principais ativos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro neste sentido?
O Rio tem ativos incomuns. É uma região com uma geografia tanto de montanhas, quanto de verde, quanto de água absolutamente única, e por isso, um ativo importantíssimo. Temos ícones azuis, que são a Lagoa Rodrigo de Freitas, a Baía de Guanabara, a Lagoa de Marapendi, as praias etc. Temos também os ícones verdes, que são as florestas que estão dentro da cidade. É muitíssimo incomum que uma cidade tenha tantos verdes com tanta exuberância. Precisamos fazer com que esse ativo se transforme em algum benefício econômico. E finamente o relevo da cidade, absolutamente único, conhecido em cartões postais no mundo inteiro, e que precisa ser transformado em emprego e renda. A cidade conseguiu ultrapassar a devastação dos morros, que gradualmente foram sendo reflorestados. Hoje, você ainda vê locais devastados, mas, na capital, nós conseguimos fazer com que os morros fossem rejuvenescidos, sob o ponto de vista de arborização. O desafio agora é a conexão dessas matas. E finalmente a Baía de Guanabara, um corpo hídrico que poucos lugares no mundo têm, e que virou uma referência negativa por causa de dejetos humanos. O Plano tenta corrigir isso.